sexta-feira, 12 de março de 2010

Nefelibatas ou a Aplicação do Oitavo Princípio da Propaganda Nazista de J. GOEBBELS.

Ontem, 11/03/2010, recebi um texto supostamente de autoria do ator Carlos VEREZA, que me mandou dileto amigo  -possuidor do único e grave defeito de ser direitista puro sangue, por cujas razões seria-lhe de extrema dificuldade não o ser.
Essse texto, encaminhado também a muitas outras pessoas, inclusive um outro dileto amigo igualmente da direita política pernambucana, é uma alucinada proposição de orquestração nacional e internacional para que o Presidente Lula paire em todo o mundo como estadista, com  o fito último de mantê-lo no poder (qual ?), que inclui menções históricas de quem verdadeiramente não sabe absolutamente nada sobre a Alemanha nazista.
Quis ignorar o texto, que é o seu merecimento único, mas me ocorreu que isso pode ser um BALÃO DE ENSAIO, ao molde do oitavo princípio da propaganda nazista de J. GOEBBELS, capaz de vir a aparentar verdade neste ano de eleição presiodencial, se repetido muitas vezes sem seu desmascaramento pela verdade.
Assim, enviei ao dileto amigo encaminhante desse testo desvairado e aos demais internautas a quem foi ele encaminhado, a mensagem eletrônica que segue aqui transcrita.
  
Caros amigos, bom dia !


Peço-lhes, encarecidamente, não me encaminhem mais textos como esse assinado como de autoria do ator Carlos VEREZA.

A justificativa é simples: Posso até parecer, mas EU NÃO SOU NÉSCIO, para perder o precioso tempo da vida com leitura de sandices que somente podem ter saído do cérebro de um mentecapto nefelibata.

Não dá para pensar, sequer por mera hipótese improvável, que alguém com um mínimo de sanidade mental leia seriamente e divulgue ilogicidade como: Há todo um lobby nacional e internacional visando a manutenção de Lula no poder.

Ora, esse lobby envolveria, então, o Presidente dos EEUU, B. OBAMA; o Primeiro Ministro inglês, G. Brown; o chefe de governo da Espanha, J. L. ZAPATERO, osprincipais líderes da economia capitalista reunidos no Fórum Econômico Mundial de Davos, Suiça; os editores do jornal francês Le Monde; entre outras das maiores lideranças políticas e econômicas do capitalismo no mundo.

Nem como anedota, por absoluta ausência de fundo de humor, pode-se cogitar da possibilidade de participação em um lobby ,como acima enunciado falso, dos maiores órgãos da imprensa e de outros meios de comunicação de massa nacionais que primam pelo mais extremado, arraigado e rançoso direitismo, tais como:

a) revista VEJA, a de maior circulação semanal, com cerca de um milhão de exemplares, pertencente e comandada pela famiglia  CIVITA (Busque-se as origens argentino-italianas das atividades dessa famiglia)

b) o conglomerado de comunicação capitaneado pela TV GLOBO, que alardeia ter cerca de 50% de média de audiência nacional, e inclui o jornal O GLOBO, tido como um dos mais importantes do País, as rádios CBN, de tarnsmissão nacional, e GLOBO, uma das de maior audiência na cidade do Rio de Janeiro, bem ainda os canais televisivos de transmissão fechada GLOBO NEWS e FUTURA, entre outros veículos (Busque-se a origem da constituição da televisão aberta, com capitais do antigo grupo Booth-Luce, dono das revistas americanas Time e Life);
c) a Rede RECORD de Televisão, a segunda em audiência de televisão aberta no País, que inclui também a televisão RECORD NEWS, com trnsmissão em UHF para todo o País, pertencente e comandada pela Igreja Universal do Reino de Deus, que professa a religião da vitória, do sucesso, pelo enriquecimento pessoal, criado e moldado pelo capitalismo norte-americano;

d) o grupo OESP (O Estado de São Paulo), encabeçado pelo jornal ESTADÃO, tradicionalíssimo defensor do conservadorismo capitalista mais radical e conceituadíssimo na alta burguesia nacional, pertencente e comandado pela família Mesquita, originada no mais puro quatrocentismo paulista;

e) o grupo FOLHA, capitaneado pelo jornal FOLHA DE SÃO PAULO, neo liberalista legítimo, que serve abertamente de linha de apoio ao PSDB, especialmente o paulista, de propriedade e administração da família FRIAS, de viva e inconteste simpatia com a alta burguesia estabelecida na Avenida Paulista;

f) a Rede BANDEIRANTES de Televisão, que inclui além da televisão aberta de transmissão nacional a televisão de canal fechado BAND NEWS, cujos editorialistas principais são verdadeiros ícones do jornalismo burguês nacional, como B. CASOY e J. BETTING, pertencente e comandada pela família ABDALA, com fundos interesses ruralistas reacionários.

O elenco acima não é exaustivo, sendo apenas exemplificativo, pois relacionou-se tão só os principais meios de comunicação de massa sediados nas duas maiores metrópolis do País; excluídos dali todos os grupos e conglomerados regionais.

A mero exemplo, tem-se o caso de Pernambuco, onde a mídia impressa diária é dominada por grupos tradicionalmente burgueses conservadores, como o Diário de Pernambuco, pertencente aos Diários Associados, criado por A. Chateaubriand e comandado por muito tempo por J. Calmon, e o Jornal do Commercio, criado por F. P. de Queiroz e pertencente, hoje, ao conglomerado de empresa JCPM, que também domina o mercado de shopping centers no estado e já concorre seriamente nas praças de Salvador e São Paulo.

Ao cabo, é-me impositivo por amor à história referir que  a Kristallnacht, A Noite dos Cristais, não marcou em 1938 o trágico início do nazismo na Alemanha; pois o nazismo teve o seu início ainda na década de 20 do século passado e assumiu o poder governamental na Alemanha muitos anos antes de 1938.

Enfim, esse alucinado texto, dito e tido como de C. VEREZA, seria a aplicação do oitavo princípio da propaganda nazista de J. GOEBBELS,  o  Principio da Verossemelhança: Construir argumentos a partir de fontes diversas, através dos chamados balões de ensaios, ou de informações fragmentadas, que conduzam à máxima UMA MENTIRA CEM VEZES REPETIDA, TERMINA POR SER VISTA COMO VERDADE.

Grande abraço a todos.
PCS

Uma mentira cem vezes dita, torna-se verdade: J. GOEBBELS.

No próximo sábado, dia 13 de março, completar-se-ão setenta e sete anos da posse de J. GOEBBELS no cargo de Ministro da Propaganda do III Reich, o estado alemão nazista chefiado por A. HITLER.
As atividades de J. GOEBBELS como propagandista do nazismo iniciaram-se em 1925, quando se tornou um dos editores do jornal Die Nationalsozialistischen Briefe ("A Carta Nacionalsocialista"). 
J. GOEBBELS, autor da celebre frase "uma mentira cem vezes dita, torna-se verdade", quando gauleiter em Berlim (espécie de chefe regional nazista), veio a ser o editor de Der Angriff ("O Ataque"), um jornal de propaganda nazista  através do qual conseguiu ampliar as bases do nazifascismo, tornando o movimento cada vez mais conhecido, difundindo as suas posições de forma agressiva.
O seu ódio ao judaísmo e ao comunismo foi expresso em incitação a toda violência e discriminação contra os mesmos, cuja propaganda nazista utilizou não só os recursos da imprensa, mas também das novas mídias, como o rádio e a televisão.
Lembrei-me, oportunamente, de ter comigo uma postagem feita, por um certo Videnanghelo, na quinta-feira - 24/07/2008, no blog português A Mulher do Próximo (http://afresquinha.blogspot.com)  reportando os onze princípios da propaganda nazista de J. GOEBBELS, que passo a transcrever em seguida.          

"Nestes dias de campanha eleitoral, convém recordar o decálogo que escreveu Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazi.

1)    Princípio de simplificação e do inimigo único. Adotar uma única idéia; um único símbolo; individualizar o adversário em um único inimigo.

2)    Princípio do método de contágio: Reunir os adversários em uma só categoria ou indivíduo. Os adversários tem de constituir-se em suma individualizada.

3)    Princípio da transposição. Atribuir ao adversário os próprios erros ou defeitos, respondendo o ataque com o ataque: “Se não podes negar as más notícias, inventa outras que as distraiam”.

4)    Princípio do exagero e desfiguração: Converter qualquer anedota, por pequena que seja, em ameaça grave.

     5) Princípio da vulgarização: “Toda propaganda deve ser popular, adotando seu nível ao menos       inteligente dos indivíduos, aos que se dirige. Quanto maior seja a massa a convencer menor há de ser o esforço mental a fazer. A capacidade de entendimento das massas é limitada e sua compreensão rara; além do mais tem grande facilidade para esquecer.

      6)
Principio de orquestração: “A propaganda deve limitar-se a um número pequeno de ideias e repetí-las incansavelmente, apresentando-as de diferentes perspectivas; mas sempre convergindo sobre o mesmo conceito. Sem
ranhuras nem dúvidas”. Daquí vem também a famosa frase: “Se uma mentira se repete suficientemente, acaba por converter-se em verdade”.

      7) Principio de renovação: Emitir constantemente informações e argumentos novos a um ritmo tal que, quando o adversário responda, o público está já interessado em outra coisa. As respostas do adversário nunca devem poder contrariar o nível crescente de acusações.

       8)
Principio da verossemelhança: Construir argumentos a partir de fontes diversas, através dos chamados
balões de ensaios ou de informações fragmentadas.

      9) Principio do silêncio: Calar sobre as questões das quais não se tem argumentos e encobrir as noticias que favorecem o adversário; também contraprogramando com a ajuda de meios de comunicação afins.

    10) Principio da transfusão: Por regra, a propaganda opera sempre a partir de um substrato preexistente, seja uma mitología nacional ou um complexo de ódios e prejuízos tradicionais. Se trata de difundir argumentos que possam se nutrir em atitudes primitivas.

     11) Principio da unanimidade: Convencer muita gente que se pensa “como todo o mundo”, criando impressão de unanimidade.

É realmente
assustador ver vigorando hoje em día este decálogo de propaganda nazi. E mais, o sistema político de mais de um país ser submetido por este famoso decálogo.

Podemos vê-lo diariamente em coisas como ETA e os nacionalismos centrífugos, ou na descarada campanha midiática antichavista ocorrida recentemente.

Tudo está preparado para que nos preocupemos mais em problemas aparentes, que uns poucos desejam que se convertam em nossa principal preocupação, em lugar de preocupar-nos por coisas que afetam a todos diretamente em muita maior medida.

Com isto também se consegue que nossos políticos recortem alegremente os direitos pelos quais tanto lutaram nossos pais e avós, enquanto os agradecemos com  efusivos aplausos.

Como dizía a rainha Amidala: “Assim morre a democracia, com um estrondoso aplauso.“

Eu, por minha parte, faz tempo que quando vejo algo nas noticias, de entrada penso que é falso (ou uma meia verdade) até que possa demostrar-se o contrário. Nossos periodistas tem demostrado em muitas ocasiões o pouco que lhes importa manipular e moldar a opinião pública, ao gosto dos poucos de sempre.

Fim.


quarta-feira, 10 de março de 2010

AMOR À MULHER (Reverência ao Dia Internacional da Mulher)

Amor nas suaves noites de verão da juventude, que findaram em doce amargura.
Amore maggiore na mocidade, terno e eterno, entristecido por Tânatos.
Amor grande de bacharel noviço, naqueles que foram os dias viajados.
Amor de homem formado, uma vez, outra vez, muitas vezes. em tempos que se renovam.
Amor inconsequente, na média idade, de jura secreta na boca da noite.
Amor à diva da vida, na curva do tempo, no céu alcançado, para quase sempre.
Amor às filhas, inexcedíveis mulheres.
Amor à neta, feição a prometer feitura de grande mulher.
Amor à mãe, às avos, que prepararam o homem para o caminho trilhado.
Amor às mulheres sem terra, sem alfabeto, sem teto, sem afeto, sem nada de seu para contar na vida.
Amor às mulheres trabalhadoras, aos seus ofícios, às suas culturas, às suas terras, às suas causas.
Amor à mulher, amor à humanidade.
Recife, 08/03/2010.

segunda-feira, 1 de março de 2010

O Parque da Tamarineira


Em dia da semana passada, editorial do Jornal do Commercio, do Recife, tratou do projeto de transformação da área onde se localiza o Hospital Ulisses Pernambucano, no bairro da Tamarineira, na zona noroeste da cidade, em parque público, sob administração privada, contando com um shopping center, preservação e manutenção de  setenta por cento do terreno arborizado e dois museus, a que seriam  destinados os atuais prédios edificados no local.
O projeto foi apresentado, aos meios locais de comunicação pública,  pela Diocese de Olinda e Recife, que administra a Santa Casa de Misericórdia do Recife,  que é a proprietária e mantenedora, com auxílio governamental, do hospital ali instalado, destinado ao internamento de alienados mentais oriundos das classes mais necessitadas da região.
Segundo noticiado, a área seria cedida a uma empresa privada por cinquenta anos, a qual construiria e exploraria o shopping center, bem ainda apalheraria os dois prédios existentes para servirem como museus e manteria as condições para uso público do parque a ser por ela equipado.
Demais disso, a empresa cessionária do terreno remuneraria a Santa Casa de Misericórdia, a partir do terceiro ano da cessão, com dez por cento dos lucros que vier a obter com a exploração do empreendimento e os pacientes  ali localizados seriam transferidos para cinco unidades em locais diversos.
Essa remuneração pela cessão do imóvel viria a calhar para a Santa Casa de Misericórdia, que vive dos parcos recursos arrecadados com os alugueres dos muitos imóveis de sua propiedade no Recife, mas que são de valores ínfimos em face dos tempos imemoriais das locações ajustadas por tempo indeterminado. 
O editorial jornalístico, aqui ao início mencionado, não se posiciona de modo claro sobre o assunto. Apenas analisa-o ligeiramente, sobre os aspectos da antiguidade das edificações ali construídas e a inevitabilidade da modernidade, no caso representada pela instalação de um shopping center no mesmo lugar.
No entanto, diversas forças de expressão política em Pernambuco se levantaram contra o projeto, sem que demonstrassem efetivamente qualquer argumento relativo aos reais interesses das populações afetadas diretamente pelo projeto, salvo o aumento de fluxo do tráfego no local.
Integrantes da categoria médica organizada vieram a público expressar a sua contrariedade ao projeto, porque acreditam que os internados no hospital ali existente poderão ser abandonados em situação pior do que se encontram.
Considero esses posicionamentos contra o projeto do Parque da Tamarineira, contendo um centro comercial, antes mesmo da certificação dos termos em que se daria a transação entre a Santa Casa de Misericórdia e a empresa empreendedora, comportamento maniqueísta açodado, a permitir também avaliação de que poderiam ser meros discursos pré-eleiçoeiros.
Tem-se que observar a destinação da área urbana ocupada com o Hospital Ulisses Pernambucano, popularmente conhecido como Hospital de Alienados da Tamarineira, não como como uma questão pautada por política partidária ou de classe profissional; mas pautada pelo melhor aproveitamento possível que se possa obter com o novo destino que se der à área, em pró da população em cujo habitat se encontra encravada.
A Santa Casa de Misericórdia do Recife é também mantenedora do Hospital do Câncer do Recife e vive em crise financeira permanente, que poderia vir a ser minorada com a renda advinda da participação nos lucros gerados pela exploração do centro comercial.
A área é vocacionada à preservação ambienta,  mas não se pode afirmar que se encontra preservada, pois o seu terreno não edificado se vê a décadas BALDIO – este o termo exato. Preservar não é abandonar, desleixar; sim manter, cuidar.
Pelo que se noticiou, a área do terreno – hoje, nessa condição baldia, viria a ser efetivamente preservada e equipada devidamente para utilização pela população, com a manutenção a cargo da empresa empreendedora do projeto.
Com relação à preocupação da categoria médica com o destino dos atuais pacientes do Hospital Ulisses Pernambucano, a viverem em estado de penúria, mal atendidos por um sistema de saúde deficiente, há que se exigir da empresa empreededora a efetiva disponibilidade dos cinco prédios hospitalares previstos, devidamente adequados e aparelhados para o digno atendimento desses desafortunados viventes, bem ainda o permanente acompanhamento da assistência àqueles nosocomiados pelas entidades profissionais atinentes ao assunto.
Quanto à alegação de que o centro comercial a ser construído no Parque da Tamarineira traria transtornos ao trânsito na já conflituada Avenida Conselheiro Rosa e Silva, é de se considerar que justo ali essa via, que prossegue com o nome de Estrada do Arraial, também se abre em leque, para o Oeste e para o Norte em ampla avenida com dupla mão de tráfego, conhecida como a Segunda Perimetral da cidade, constituída pelas Ruas Padre Roma e Cônego Barata; a qual ainda conecta com a Avenida José Maria, que permite o trânsito do Parque da Jaqueira até a Avenida Norte, na Encruzilhada; cujas vias, circundantes  da área em foco, serviriam para os fáceis e desembaraçados acesso e saída tanto do Shopping Center como do parque projetado.
Enfim, sendo certo o que se anunciou na mídia sobre o projeto do Parque da Tamarineira, não se veria na sua realização contrariedade à preservação do meio ambiente e dos dois prédios ali edificados, nem a princípio aos interesses dos pacientes ali internados nem mesmo ainda  aumento dos percalços ao trânsito local.
PCS

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

OUTROS TEMPOS - O TEMPO DE AGUINALDO SILVA


Em plena tarde do domingo de carnaval olindense, acompanhado de amigos do Mato Grosso do Sul, tive a surpresa do feliz re-encontro, depois de mais de quarenta e cinco anos de apenas notícias, com Alves Dias, o grande artista plástico sempre inovador e dos maiores amigos companheiros da juventude.
Recém vindo da consternação pela perda da Gina, sua companheira de longuíssimos anos, igualmente artista plástica de escol da cena olindense, dedicada à pintura naïf, Dias rememorou-nos os outros tempos que viveu com outros companheiros – na tentativa de luta insurreta contra o establishment burguês - e da que vivemos juntos na luta política estudantil, sempre travada pela realização concreta da liberdade e da igualdade.
Dentre as rememorações que nos acorreram, pela extrema violência contra o direito de livre expressão – no caso, artística – e contra a autonomia da universidade, sobrelevou-se o episódio do roubo de três quadros, em agosto de 1965, pelos beleguins da ditadura instalada há um ano, do salão de artes comemorativo da fundação dos cursos jurídicos no Brasil, promovido pelo Diretório Acadêmico Demócrito de Souza Filho, no saguão da consagrada Faculdade de Direito do Recife.
O mandato de Carlos Eduardo CADOCA Pereira – hoje, deputado federal pelo estado de Pernambuco – iniciado naquele ano de 1965, foi o primeiro em que a “esquerda” assomou à presidência do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito do Recife, que vinha sendo dominado, por muito tempo, pelos enfants da elite burguesa nordestina – ora mais à direita, ora mais ao centro; fato que por si só provocava a ação de permanente “vigilância democrática” (1) também sobre aquela fração da juventude estudantil pelos órgãos de repressão do “estado novo da UDN” (2), como já se fazia com relação aos diretórios “esquerdistas” desde algum tempo – por exemplo, Engenharia e Medicina.
Naquela ocasião, era eu o Diretor de Cultura e Apostilas do Diretório Acadêmico presidido por Cadoca e promotor do salão de artes plásticas rememorado; para cujo empreendimento foi indispensável a coordenação do colega Carlos Roberto Pio da Costa, dotado de profícua cultura artística e que, depois, veio a ser assessor de Arthur da Távola, quando Senador pelo estado do Rio de Janeiro; em cujo evento Dias foi um dos artistas plásticos expositores, que contava com Maria Carmem, Wellington Virgolino, Corbiniano Lins, João Câmara, entre outros.
João Câmara cedeu para o salão a sua obra A C(R)UZADA, que retratava o busto de uma mulher de perfil – vestida por uma blusa diáfana, deixando-se ver o seio, a portar uma lança com uma flâmula na extremidade da haste, na qual se via a expressão A CUZADA, uma vez que o R (de CRUZADA) estava oculto pelo drapeado da bandeirola.
Wellington Virgolino colaborou com o CAPITÃO DE FANDANGO, figura expressiva de olhos amendoados e floreada ao modo característico do pintor, que encimando todos os galões exibia um PENICO sobre a cabeça.
E Alves Dias emprestou para exibição no salão O CRISTO NU, em que retratava o Salvador crucificado, assim como as igrejas cristãs o expõe, mas com o sexo exposto.
Certo dia da semana de artes, ao meio das aulas em ministração, fomos todos, os professores, estudantes e funcionários da Faculdade, assustados com o pandemônio causado pela queda dos cavaletes em que se assentavam os quadros em exposição no saguão do salão de artes.
Todos corremos para lá e, indignados, nos informamos de que foram policiais civis, vestidos a caráter, na época - terno branco, gravata e chapéu – que haviam arrebatado com truculência as pinturas de João Câmara, Wellington Virgulino e Alves Dias, levando-as acintosamente em jipe oficial - de cor azul e chapas brancas, não anotadas, em face da rapidez da ação.
Desconhece-se o paradeiro dessas obras de arte, mas há algum tempo um ex-membro do famigerado Comando de Caça aos Comunistas (C.C.C.) - hoje, falecido – revelou-me que tais quadros se encontravam integrados a coleções particulares de famílias da mais alta elite burguesa pernambucana.
Esse episódio é demonstrativo do início brando de outros tempos, que vivemos por vinte e um anos: os tempos saudosos de Aguinaldo Silva – o culto, fino e educado novelista da vênus platinada global (3), os tempos da ditacuja, porque dizer ditadura é revanchismo.
P.C.S.
NOTAS = 
(1) A ETERNA VIGILÂNCIA É O PREÇO DA DEMOCRACIA foi o lema da extinta União Democrática Nacional - UDN, partido da alta burguesia brasileira, fundado depois da redemocratização de 1945 e extinto, em conjunto com todos os outros, pelo Ato Institucional n.° 2, do regime militar instaurado pelo golpe de 31/03/1964;
(2) ESTADO NOVO DA UDN, foi como inicialmente os analistas políticos apelidaram o regime ditatorial instaurado com o golpe militar de 1964, porque esse partido, que fora criado a partir de fração do socialismo democrático opositor ao Estado Novo de Getúlio Vargas (1937/1945), foi o principal setor civil organizado partidariamente que incitou e participou da intervenção militar na vida pública brasileira, como por fim ocorreu. Não é demais lembrar que a UDN esteve envolvida com tentativas de golpe contra o governo democrático de Getúlio Vargas (1950/1954), contra a posse do presidente eleito Juscelino Kubistchek e com levantes militares contra o governo de JK;
(3) O novelista, em postagem comentada no blog de um certo Bruno Garschagen, sob o título A Transição Está Em Curso III, se afirmou culto, fino e educado a se distinguir da razza esquerdista e produziu afirmações marcantes tais como: ... por mais sangrenta que fosse a ditadura, as aflições que então sofríamos por causa disso não tinham tanto peso quanto têm as aflições de hoje, quando somos supostamente livres; cujo aprendizado da bazófia assumida publicamente por impunidos co-autores do Ato Institucional n.º 5, de 1968, foi objeto do artigo A VERDADEIRA IMPUNIDADE OU O RESÍDUO DA DITADURA, publicado neste blog.



sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

ESTADISTA GLOBAL

No dia de ontem, uma jornalista política brasileira, em sua coluna publicada em grandes jornais de São Paulo, do Rio de Janeiro e do Recife, para sustentar a sua opinião conclusiva de que o sucesso da possível candidatura presidencial de Dilma Roussef independe do empenho que o Presidente Lula pode lhe dispensar na campanha (transferência de voto, na linguagem usual do jornalismo político), porque “o que vai definir o desempenho ...é o grau de empatia que ela conseguir , ou não, estabelecer com o eleitor”, comete diatribes várias contra o líder político maior do Partido dos Trabalhadores brasileiros, em evidente surto idiossincrático.
De princípio, vejo que assiste razão à jornalista, apenas quanto à importância da empatia que a possível candidata pode estabelecer com o eleitorado, desde que não há candidatura resistente a comportamentos desastrosos à imagem pública de candidato em campanha.
Penso, entretanto, que para o sucesso da candidatura do Partido dos Trabalhadores à presidência da República é indispensável todo o apoio que o líder dos trabalhadores, Lula, puder a ela dispensar, pois tanto o seu governo quanto a sua liderança política estão solidamente fundadas na população, sem permissão a dúvidas; como demonstram a superação com o apoio popular das falsas crises institucionais construídas pelos seus adversários e toda a série de pesquisas de popularidade e aceitação pública abrangentes desde o início do seu primeiro governo, procedidas pelas mais diversas instituições de pesquisa de opinião pública.
Mas o que se acentua na arenga da jornalista são as diatribes, que assomam a desaforos, assacadas contra o líder político Lula, como, entre outras, a de possuir popularidade por meio de trabalho de construção de mito, de esquema de culto à personalidade.
A jornalista foi desafortunada neste ponto porque, na noite anterior, os sítios eletrônicos de notícias “on line” do País – entre os quais, Folha On Line e Terra – haviam divulgado que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva será agraciado com o "Prêmio Estadista Global", do Fórum Econômico Mundial, destinado a honrar os líderes políticos que usam o seu mandato para aperfeiçoar o estado do mundo, e cuja premiação, a se dar no próximo dia 29, em Davos (Suíça), será a primeira a ser concedida nas 40 edições do fórum.
Segundo a notícia divulgada, para o presidente-executivo do Fórum Econômico, Klaus Schwab, "o presidente do Brasil demonstrou um verdadeiro comprometimento com todos os setores da sociedade" e "esse comprometimento tem sido de mão e mão, integrando crescimento econômico e justiça social, em cuja nota afirmou que “O presidente Lula é um modelo a ser seguido pela liderança global".
É plausível que a jornalista brasileira não tivesse cometido o despropósito acima reportado, pelo menos tão de imediato à notícia da premiação do Presidente Lula como ESTADISTA GLOBAL, se dessa notícia tivesse ela tido conhecimento antes da edição da sua coluna de ontem; pois é desarrazoável pensar que o reconhecimento internacional da liderança política de Lula, mormente por parte da elite econômica mundial, haja sido obra de construção de mito, de culto à personalidade.
Mesmo sem conhecimento da atribuição do prêmio de ESTADISTA GLOBAL, se mais comedimento tivesse no cometimento das suas diatribes, a jornalista de certo não teria acoimado a popularidade do presidente Lula de resultado de trabalho de construção de mito, de culto à personalidade, não só por que mito não é conceito apropriadamente aplicável em análise política séria e culto à personalidade não soe acontecer nos regimes democráticos em que ocorre ampla e permanente campanha oposicionista pelos maiores órgãos dos meios de comunicação pública (v. g., Folha, Estado, noticiosos das redes de TV Globo e Bandeirantes); porque um mínimo de sua atenção ao conceito político internacional conquistado pelo presidente, desde algum tempo, lhe evidenciaria o desarrazoamento dessa sua afronta.
Com efeito, já em 24/12/2009, a BBC Brasil noticiou que o jornal francês Le Monde escolheu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como O HOMEM DO ANO DE 2009, na primeira vez em que o prestigiado diário de Paris decidiu fazer esse tipo de indicação, em seus 65 anos de história, com a seguinte afirmação: "Nossa escolha de razão e coração recai sobre o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva."
Le Monde justificou que a "trajetória singular de antigo sindicalista, por seu sucesso à frente de um país tão complexo como o Brasil, por sua preocupação com o desenvolvimento econômico, com a luta contra as desigualdades e com a defesa do meio-ambiente, Lula bem poderia ter merecido... o mundo."
Antes, no dia 11 do mesmo mês de dezembro, o Presidente Lula foi escolhido pelo jornal espanhol El País uma das cem personalidades mais importantes do mundo ibero-americano em 2009, em cujo perfil assinado pelo primeiro-ministro da Espanha, José Luiz Zapatero, foi classificado de "homem que assombra o mundo", "completo" e "tenaz". Por Lula sinto uma profunda admiração", escreveu o premiê espanhol.
Não é crível que - se a LIDERANÇA política do presidente Lula, baseada na sua identificação com as principais causas da população nacional, fosse mero populismo, como é vezo dos conservadores brasileiros acoimarem - a elite da economia mundial, encastelada no Fórum Econômico de Davos, Le Monde, conceituado periódico parisiense, o jornal espanhol El País e o governante ibérico José Luiz Zapatero viessem a com ela comprometerem suas idoneidades, ao invés de denunciá-la.
Essa é a questão que tanto aflige os neoliberais brasileiros, denominados sociais-democratas, e seus porta-vozes: a liderança política do presidente Lula fundada na sua identificação com as principais causas populares; que, assim, tentam sofregamente, diminuí-la com a vã e indefinível conceituação de populismo, desde sempre um dos fantasmas agitados pelo conservadorismo latino-americano na busca da desqualificação da legitimidade dos governos politicamente embasados no apoio popular, inclusive como motivação para eventuais golpes de estado.
PCS

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

A APLICAÇÃO DO DIREITO RESPEITANTE AOS COSTUMES DOS KAIOWA E ÑANDÉVA.

Ao final do ano recém findo, tive a oportunidade de ler parte de um documento produzido a partir do trabalho encetado, a partir de 2005, no "Comitê Gestor de Políticas Indigenistas Para o Sul do Mato Grosso", com a diretriz de compreender a organização social, o modus vivendi e os interesses efetivos individuais e familiares dos dos Guaranís Kaiowa e Ñandéva, mediante contato direto com esses indígenas em reuniões coletivas (aty guasu = grande assembléia) em cada área comunitária, inclusive intercomunitárias.
O trabalho do mencionado Comitê Gestor foi coordenado pela indigenista ROSÂNGELA CARVALHO - do Ministério do Desenvolvimento Social - e com a participação das assistentes sociais MARGARIDA NICOLETTI, MARISTELA FARIAS e LIZANDRA SHUAIGA, do advogado JORDASHY OHIRA e da antropóloga ALEXANDRA BRABOSA DA SILVA, e o documento sobre ele produzido, com mais de um autor, deverá ser publicado ainda no correr do presente trimestre, provavelmente com o livro tendo por título OS DESAFIOS ENFRENTADOS PARA O RECONHECIMENTO DOS DIREITOS DAS CRIANÇAS KAIOWA E ÑANDÉVA.
Da parte lida do futuro livro, ressaltou-se-me a significativa preocupação com “... o despreparo de muitas das instituições que atuam diretamente com as crianças indígenas, sobretudo dos operadores do Direito, ao interpretar a legislação, não respeitando as especifidades das comunidades tradicionais”.
Histórica e moralmente, as instituições formais do estado brasileiro têm o dever de reconhecer e respeitar os usos e costumes diferenciados dos povos indígenas, que são parte integrativa (integrante + ativa) de um dos elementos essenciais de constituição do próprio estado.
A contemporaneidade repele o trato institucional com os povos indígenas como ao tempo dos colonizadores ibéricos, quando se impunha à outrance os conceitos e ações eurocêntricos, devastadores dos usos e costumes - tradições - que a si eram estranhos.
No hodierno, no trato geral das relações sociais e jurídicas, tem-se avançado bem institucionalmente quanto à questão do respeito à diversidade moral, religiosa e de costumes expressada pelas comunidades minoritárias da sociedade brasileira.
É, assim, sobremodo estranhável o diagnóstico de “... total desconhecimento das especificidades culturais desses indígenas e, ao mesmo tempo, da legislação indigenista, ...” pelos agentes públicos com poderes “... de retiradas de crianças indígenas do seio do seu grupo social com consequente alocação em instituições de abrigo e/ou disponibilizadas para adoção por não indígenas e mesmo estrangeiros” , cuja gerência de destinos tem sido “interferência extremamente maléfica” a ameaçar a segurança de vida dessas crianças, além de ofender direitos indígenas assentados nos seus costumes - direito consuetudinário – e nos preceitos legais nacionais e internacionais, pelas palavras dos autores do documento.
Exsurge dos trabalhos contidos nessa obra a necessidade urgente de as principais instituições jurídicas públicas brasileiras, desde o Conselho Nacional da Justiça,o Ministério da Justiça e a Advocacia Geral da União, comandarem ações imediatas para que os agentes que tratam diretamente das questões indígenas aqui abordadas venham a ser devidamente formados para a aplicação adequada do direito nos casos sob as suas jurisdições, ensejando-se a realização da verdadeira Justiça, objetivo supremo da ciência jurídica.
Para superação, desde já, da má aplicação do direito no trato das questões indígenas abordadas no documento enfocado, convém a esses aplicadores passarem a considerar, de logo, as lições de CARLOS MAXIMILIANO, que: a) propugna ao intérprete desempenhar o seu papel de renovador consciente, adaptador das fórmulas vetustas às contingências da hora presente, com utilizar todos os valores jurídico-sociais – verdadeiro sociólogo do Direito, e b) adverte ter tido sempre força de lei os costumes, considerados pela ciência moderna fonte viva, a mais rica e importante, do Direito Objetivo.
 PCS

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Armas Nucleares


Neste domingo, a Folha de Pernambuco publicou carta do leitor Habib Saguiah Neto, em que é abordada a questão das armas nucleares frente à possibilidade de o Irã vir a produzi-las. É notável o primeiro parágrafo da missiva, em que o leitor chama a atenção para o fato de que os países mais belicamente equipados, como os EEUU e a Rússia, são possuidores de armas atômicas e, portanto, lhes faltaria a condição moral para exigirem do Irã conduta diversa, a seguir transcrito, textualmente: 

"De parabéns o presidente Lula pela ousadia de afirmar em Berlim que Estados Unidos e Rússia não têm moral para criticar o Irã por questão de armas nucleares, já que os dois países são as maiores potências nesse setor."



A questão da exigibilidade de o Irã e a Coréia do Norte não produzirem nem possuírem armas atômicas, neste preciso ponto levantado pelo leitor, demanda uma discussão mais abrangente, qual seja a de a comunidade internacional, por seus organismos multilaterais adequados, exigir também, pari passu com a feita àqueles países, que os EEUU, a Rússia e a China iniciem de imediato o desmonte drástico, sob prazos marcados, dos seus arsenais atômicos, bem que os demais detentores desse potencial bélico, como Israel, França, Paquistão e Índia, destruam desde logo todo os artefatos nucleares que possuam e igualmente as instalações capazes de as produzirem.


Exigir-se, hoje, que o Irã e a Coréia não tenham a possibilidade de possuírem e tratarem matéria possível de ser utilizada para produção de artefatos nucleares, mas que pode ser utilizada apenas para fins pacíficos - como o faz o Brasil - sem que, ao mesmo tempo, se proceda a ações objetivas de desmonte integral dos arsenais atômicos já existentes, não é somente hipocrisia.  

Essa exigência assim feita é principalmente um lance de jogo para preservar o mandonismo das potências já atômicas sobre os demais países, mantendo-se a insegurança mundial em face dos conflitos existentes, especialmente a partir da questão Palestina, com Israel possuidor de bomba atômica, e da questão da Cachemira, com India e Paquistão, inimigos, ambos também possuidores da bomba atômico e dos meios de continuar a produzi-las.  
 
Aliás, de hipocrisia no trato da questão de armas nucleares e Irã, quem deu aula de cátedra foram os maiores veículos do jornalismo nacional, ao criticarem o presidente Lula por recepcionar o presidente iraniano, por ser este dirigente maior de um país que quer ter a bomba para ameaçar os países da sua região ou próxima,e nada criticarem, quando da visita ao Brasil do presidente israelense, em dias anteriores próximos, sobre a condição de Israel ser o único estado da sua região a deter produção e posse da bomba atômica. 

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A VERDADEIRA IMPUNIDADE OU O RESÍDUO DA DITADURA

No curso de quase todo o século XX, era da normalidade política mundial que os ditadores protegidos pelo Tio Sam, se não falecessem no mando – casos de Antônio SALAZAR, em Portugal, e de Francisco FRANCO, na Espanha - ao serem substituídos por outros sequazes ou mesmo por um regime de feições democráticas, seguissem como se fossem pessoas ilibadas, sem responderem pela responsabilidade dos crimes cometidos por seus governos contra os direitos do homem e do cidadão; que se exemplifica nas ocorrências vividas por várias repúblicas latino-americanas.
Já ao final daquele século, a história começou a se modificar e, então, às quedas desses ditadores, passou-se à responsabilização criminal deles e de todos os que, ao ensejo desses governos, houvessem contribuído, por mera culpa ou dolo, para o cometimento daqueles delitos, imprescritíveis por consenso universal: casos de Augusto PINOCHET, no Chile; Jorge VIDELA, Emilio MASSERA, Roberto VIOLA e Leopoldo GALTIERI, na Argentina; e de Gregório ÁLVAREZ e Juan BORDABERRY, no Uruguay.
No Brasil, por virtude das celebradas cordialidade e conciliação - há mais de quatro séculos em prol sempre exclusivamente dos interesses das elites econômicas - nenhuma responsabilização criminal desses ditadores ocorreu e, até, há logradouros, edifícios e monumentos públicos com os seus nomes ou dedicados à sua memórias.
Pode parecer absurdo, mas alguns que subscreveram, com o ditador da época, o Ato Institucional n.º 5 – o edito consagrador da permissividade para os piores atos criminosos contra os direitos humanos no País – ainda hoje se gabam dessa conduta execrável que adotaram, ao invés de se verem responsabilizados judicialmente, como o caso de um que publicamente ratificou a co-autoria com a repetição da frase dita então: “Às favas os escrúpulos”; e outro que, igualmente de público, confrontou (arrostou, diria um militar de altíssima patente na época) a sociedade nacional ao afirmar que subscreveria de novo o malsinado ato hoje, se as condições de tempo e temperatura fossem as mesmas.
Essa clamorosa impunidade precisa ser suprimida, a bem da sociedade brasileira; porque, como se vê, o erro não consertado estimulou co-autores seu a se acreditarem certos e até a dele se vangloriarem, a gerar renovados germes dessa enfermidade política.
No blog de um certo Bruno Garschagen, a postagem intitulada A Transição Está Em Curso III, ao abordar e transcrever outra postagem do autodenominado intelectual Agnaldo Silva - novelista da Vênus Platinada - contém afirmações marcantes do aprendizado disseminado pela bazófia assumida publicamente pelos impunidos co-autores do Ato Institucional n.º 5, de 13/12/1968 – data da infâmia nacional - da qual se passa a excertos textuais:
“...essa gente da esquerda quer orientar ou tolher os modos de vida de cada um, permitiu que pessoas de bem como Aguinaldo se sentissem seguras para, finalmente, dizerem o que pensam, exercendo a liberdade de opinião que durante décadas foi solapada. O regime militar institucionalizou a censura pela via legal e pelo exercício da força. A violência explícita é mais fácil de combater. O inimigo tem face, nome e endereço certo. A esquerda usou a tática de incutir na cultura nacional, através da deseducação mediante o aparelhamento das escolas e universidades, a moral unívoca. Usaram direitinho a ditadura militar a seu favor. E enganaram de forma competente os brasileiros, que, horrorizados com o regime de exceção, foram levados a acreditar que os bonzinhos da história eram os representantes da esquerda. Até hoje a sociedade brasileira sofre o paradoxo de encarar ex-guerrilheiros homicidas como salvadores da pátria e militares que lutavam contra a ditadura dentro dos quartéis como facínoras (isso sem mencionar indivíduos que hoje são militares, mas que na época do regime eram crianças ou sequer eram nascidos, e não raro ouvem insultos travestidos de piadinhas sobre aquele período). As responsabilidades e crimes de cada um (militares e esquedistas) foram enterrados com a anistia,...”
“... por qual razão Aguinaldo Silva se calou antes e só agora resolveu mostrar a cara? Há duas respostas. A primeira, a dele próprio, que reproduzo: Mas por mais sangrenta que fosse a ditadura, as aflições que então sofríamos por causa disso não tinham tanto peso quanto têm as aflições de hoje, quando somos supostamente livres. É que na época os militares até podiam impor arbitrariamente sua vontade. Mas pelo menos não eram fundamentalistas, não achavam que tinham a missão divina de reorganizar e assim salvar o mundo. E agora…

(Grifos não do original).
Enfim, aí estão os fatos, diante dos quais é irrecusável perceber que o germe do golpismo e da ditadura encontra-se ainda sobrevivente, na busca e na provocação da oportunidade para se ativare em enfermidade a atingir de novo os direitos do homem e do cidadão.
O antídoto eficaz é exterminar exemplarmente esse resíduo da última enfermidade havida, com a responsabilização pessoal perante o judiciário dos restantes co-agentes da edição do A.I.5 e dos atos delituosos dele consequentes.
PCS
P.S. - 1) O aparelhamento da educação no Brasil se deu verdadeiramente ao tempo da ditadura, com a institucionalização da violação da autonomia da Universidade e a punição por meio de Comissões de Inquérito, sem asseguramento de quaisquer direitos de defesa, de professores, alunos e funcionários (suspensões, expulsões, aposentadorias compulsórias, colocação em disponibilidade, demissões), nos termos do Decreto-lei n.º 477, filiado ao famigerado A.I.5, no intuito de forçar a formação (impossível) de uma só ideologia burguesa nacional, sem qualquer contestação;
2) Fundamentalismo, como referido pelos saudosos da gloriosa, quem praticou foram exatamente os teóricos e propagandeadores da ditadura invocada - inclusive a fábrica de alienados políticos conhecida por Vênus Platinada - que a proclamavam, com todas as letras, ser a salvação do Brasil em face da ameaça do comunismo internacional e defensora perpétua dos valores da civilização cristã e da cultura ocidental (Remember: Brasil, ame-o ou deixe-o).